Hortas Comunitárias Urbanas

Meu primeiro contato com hortas comunitárias urbanas foi em 2014 em São Paulo. Quando ouvi falar sobre o assunto minha impressão foi de que algo revolucionário estava tomando forma.

Em uma cidade grande onde os espaços verdes são cada vez menores, as pessoas mal conhecem seus vizinhos e os alimentos vêm de longe, a ideia de ocupar espaços públicos e revitalizá-los vem embalada em um pacote cheio de benefícios interessantes. Quebrar todo esse paradigma no meu ponto de vista é sim uma revolução!

A proposta das hortas comunitárias não é nova. Na Europa, em Cuba, na Austrália e nos Estados Unidos essa prática já começou há algum tempo e mesmo em Curitiba existe um projeto que funciona desde 1986.

Abaixo o mapa da Falling Fruit, uma organização que mapeia hortas urbanas pelo mundo todo. O Brasil aparece com o número de 35 hortas mapeadas. Um número bem pequeno comparado ao resto do mundo:

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As hortas comunitárias urbanas não têm um dono. Todos que ali trabalham são voluntários. O espaço geralmente é um terreno público em um parque, em um jardim, uma praça e muitas vezes não tem autorização da prefeitura. Isso não significa que seja algo ilegal, mas na prática essa autorização demora tanto tempo que acaba desanimando quem está empolgado para começar. Então a ideia de começar e depois que já está funcionando bem pedir a autorização acaba sendo o método que funciona melhor!

Engana-se quem acha que criar uma horta comunitária urbana é um bicho de sete cabeças. Com pessoas comprometidas e interessadas, o conhecimento técnico é o menos importante. O que vale nessa hora é a união da comunidade em prol do objetivo. Se você quer começar uma horta no seu bairro, mas não sabe onde tem um espaço livre ou quer encontrar vizinhos com o mesmo objetivo, baixe o aplicativo do Cidades Comestíveis. Para quem quiser algumas dicas de como iniciar uma horta comunitária sugiro este link.

Existem muitas razões para começar uma horta comunitária em seu bairro: conhecer melhor os vizinhos e restabelecer ligações comunitárias, revitalizar espaços públicos, facilitar o acesso a alimentos sem agrotóxicos, não depender tanto do sistema, saber a procedência dos alimentos, se conectar com a terra, debater sobre soluções sustentáveis para o bairro, conhecer novas técnicas, novas plantas, novas pessoas, aumentar as áreas verdes diminuindo as ilhas de calor e muito mais! Além disso as hortas comunitárias promovem a agroecologia, a permacultura, aprendizado, saúde, integração, a comunhão, cooperação, conscientização, lazer, abundância, paz interior e responsabilidade.

As hortas comunitárias seguem uma organização horizontal onde todos têm voz e podem opinar sobre o que acreditam ser melhor para o grupo. Planejamento e organização são fundamentais para que as pessoas não desistam e para que o trabalho não tenha que ser feito mais de uma vez. A organização traz mais engajamento e quanto mais pessoas participarem, melhor será o resultado para a comunidade.

Hortas comunitárias urbanas em São Paulo

Em São Paulo a primeira horta comunitária foi a Horta das Corujas, na Vila Madalena. A horta surgiu de uma conversa entre as jornalistas Claudia Visoni e Tatiana Achcar que haviam criado o grupo Hortelões Urbanos no Facebook com o intuito de trocar informações sobre o plantio de alimentos em casa. Em um ano a horta começou a surgir. Todas as informações como regras, data de mutirões, piqueniques, problemas, ideias são postadas na página do grupo no Facebook que conta com mais de 3.300 membros.

Com diversas hortaliças, flores, ervas aromáticas, PANCs (plantas alimentícias não convencionais), algumas frutíferas, duas cacimbas com qualidade da água analisada resultado classe 1 – não potável, mas adequadas para irrigação de hortaliças que crescem rente ao chão e são consumidas cruas), dois hugelkutur, compostagem, criação de abelhas sem ferrão, a horta segue agregando mais pessoas e fazendo crescer amizades (e muitas plantas!).

Fotos arquivo pessoal

A horta está linda e vai muito bem! Mas nem tudo são flores. A Horta das Corujas passa por dificuldades como vizinhos céticos que vão contra a iniciativa, pessoas que roubam mudas, podas erradas da Prefeitura, dedetizações em tempos de dengue e o principal, a falta de recursos humanos.

Segundo a Wikiversity que mapeia iniciativas de agricultura urbana em São Paulo, o número de hortas urbanas comunitárias cadastrado até hoje é de 36: 5 comerciais e as demais com caráter educativo.

O movimento das hortas comunitárias também está chegando com força nas escolas como forma de ensinar as crianças desde cedo a importância da procedência dos alimentos e da alimentação consciente.

A ONG Cidades Sem Fome está ajudando a disseminar hortas comunitárias por toda a cidade de São Paulo, principalmente na periferia. Leia esta matéria sobre o Cidades Sem Fome.

O MUDA e o Vitae Civilis fizeram um vídeo bem bacana sobre Agricultura Urbana e Periurbana em São Paulo:

Hortas urbanas comunitárias em Florianópolis

Em 2015 fiz um curso sobre Agroecologia onde conheci a Letícia Barbosa uma das participantes do Quintais de Floripa, grupo de pessoas que se uniu há um ano para espalhar hortas comunitárias no Sul da ilha de Florianópolis.

Quando vim a Florianópolis no começo de 2016 quis conhecer uma das hortas do grupo, a Horta do Pacuca (Parque Cultural do Campeche – O parque seria construído onde nos anos 20 era a pista de pouso e decolagem da rota de correios da Aeropostale, uma empresa de aviação francesa que cruzava os continentes com a difícil tarefa de comunicar os povos. Por questões burocráticas o parque ainda não saiu do papel, mas seria um desperdício deixar um terreno tão grande sem utilidade pública. A comunidade luta para que esse histórico espaço comunitário e patrimônio imaterial da cultura local não seja loteado ou tome outro destino).

Em homenagem ao local, os canteiros da horta foram feitos de forma que olhando de cima a figura seja de um avião.

A horta tem um ano e segue em ritmo de organização. Os mutirões acontecem normalmente aos domingos que é quando a comunidade se une para fazer novos canteiros, plantar, fazer cercas, criar novos projetos e celebrar.

Fotos arquivo pessoal e Mario Kabilio

Quase ao lado da horta existe um projeto de compostagem da empresa Destino Certo  que recolhe o lixo orgânico de restaurantes da região e faz leiras de compostagem estática (método UFSC). Os moradores do bairro também são encorajados a pegar um baldinho vazio e entregá-lo cheio de resíduos para serem compostados. Esse modelo é o mesmo que foi usado no Pátio de Compostagem da Lapa em São Paulo com a orientação de Marcos José de Abreu, do CEPAGRO.

Parte do composto gerado pelas leiras é usado na horta. Até hoje já foram compostadas mais de 50 toneladas de resíduos orgânicos ali no Pacuca.

Fotos arquivo pessoal e Destino Certo

As dificuldades da Horta do Pacuca são basicamente as mesmas da Horta das Corujas em São Paulo. A principal queixa de ambas é a falta de pessoas engajadas em uma atividade tão prazerosa que agrega tanto a vida de cada um e da comunidade como um todo. Fora isso também existem dificuldades financeiras. A prefeitura não ajuda e todo o custo costuma ser rateado entre os voluntários.

Se você tem vontade de fazer uma horta comunitária sugiro que antes participe de uma perto de sua casa para entender a dinâmica e ajudar as hortas que existem e que precisam de pessoas comprometidas.

Além da Horta Comunitária do Pacuca existem outras 4 hortas que pertencem ao coletivo Quintais de Floripa apenas no sul da ilha. Uma delas é a horta da AMOJAC (Associação dos Moradores do Jardim das Castanheiras) que também fui conhecer no começo do ano:

Fotos arquivo pessoal

Indico também uma matéria sobre hortas urbanas que foi publicada no site Nosso Foco e pode ser vista aqui: http://www.nossofoco.eco.br/organicos-hortas-alimentacao-consciente-permacultura/revolucao-das-hortas/.

Hortas Comunitárias pelo mundo

Abaixo coloquei alguns exemplos de hortas comunitárias pelo mundo que valem a pena conhecer:

Estados Unidos
NY –
Brooklyn Grange Farm – a maior horta urbana de NY feita no telhado de um prédio no Queens.

Indianápolis – Hospital Eskenazi Health: horta comunitária dentro de um hospital.

China – Hong Kong Value Farm: horta urbana comunitária dentro de uma antiga fábrica de vidro.

InglaterraHortas em Todmorden: mais de 40 hortas na cidade que alimentam a população local.

AustráliaVeg Out: horta comunitária em um antigo clube de boliche que se financia através de uma feira orgânica com produtos da própria horta.

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Comentários

  1. Permalink Submitted by Paulo Ramos on qua, 08/03/2017 - 14:34

    Muito interessante a matéria, parabéns espero poder ajudar também com informações do nosso segmento livro

  2. Permalink Submitted by Márcia Sarazott on ter, 13/09/2016 - 18:28

    Incrivelmente bem explicado e fotografado, AAAAAAMMMOOOOOOOOOOOO, HORTAS!
    Sou a favor de revitalizações dos espaços ociosos e depredados de nossas cidades, inclusive lotes baldios, com a parceria da prefeitura e mutirões da vizinhança!

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